Para que servem os irmãos

Os mais velhos eu realmente não sei, mas os caçulas, Ah! os caçulas. Sempre muito úteis. Quando os pais precisam de alguma informação sobre o paradeiro ou as travessuras dos mais velhos, ele está sempre pronto a depor. Ou, quando há tranquilidade demasiada, é ele que vai lá dar uma movimentada.

Meu pai conta que em dias tranquilos, ele no cômodo dele, percebia algum movimento em direção ao quarto dos mais velhos, e de repente a correria! A caçula havia invadido santuário alheio e perturbado a paz local, de súbito saindo com algum despojo da batalha, ou simplesmente fugindo da manifestação de vingança de algum de seus irmãos, ou até – que covardia! – dos dois juntos em busca do resgate de tal objeto, ou  simplesmente dispostos a lutar pela justiça, a qualquer preço.

Meu irmão sempre foi, e continua sendo, o mais inteligente. Juntando a minha inteligência e a da minha irmã – que deve me desculpar por tal revelação -, não chegamos aos seus pés. Ele era o cara que apresentava os neologismos, os enigmas, os mistérios, as notícias, e tudo que ele dizia sempre vinha carregado de grande importância, geralmente seguido de silêncio. Se fosse possível ouviríamos um demorado e suave “Ooooh” da platéia.

Era ele também que de vez em quando deixava escapar uma expressão menos polida, possivelmente usada na turma dos grandes. Ouvi e absorvi. Voltando da escola, de carona, estávamos eu, meus dois irmãos, a motorista e a filha dela, minha colega de turma que estava com o braço engessado. Eu estava sentada exatamente atrás da motorista e ao lado da minha colega. Sua mãe me disse para segurar os livros da menina, ao que eu neguei. Mais duramente, ela insiste. E eu respondo um sonoro: “Vai se ferrar!”

Pausa. Uma longa pausa. Todos, com exceção do meu irmão, arregalaram os olhos e viraram muito lentamente – slow motion – em minha direção. Meu irmão, à frente, fechou os olhos, cobriu o rosto com uma das mãos e balançou vagarosamente a cabeça de um lado para o outro, como se, com esse movimento, conseguisse evitar a tragédia. A mulher desligou o carro e me censurou duramente até o dia seguinte, ou quase isso. Não lembro de nada que ela disse, mas lembro da cara da galera que parecia sofrer de alguma dor.

Quando um irmão mais velho apresenta uma palavra nova, o mais novo não deve perguntar todo hora o que é. Deve fingir que entende. Isso preserva o orgulho natural do ser humano. Mas não desta vez, eu perguntei: “o que é otário?” “Burro em inglês”, ele disse. Um tempo adiante eu ouvi alguém dizer isso bem alto e refleti, “nossa, fui enganada. Nada a ver isso de burro em inglês”. Pensei, e entrei na faculdade.

Minha irmã era ótima com as vozes (ainda é). Enquanto brincávamos de Barbie embaixo da mesa de jantar de madeira, dando vida às bonecas com movimentos corporais e vozes super maduras e femininas. Nossas escapadas furtivas. Nossos falsos banhos, ligar o chuveiro e aguardar do lado de fora (mas tinha que passar a mão na água pra dar um efeito sonoro mais coerente). Comer algo proibido na rua – em dupla – e guardar o segredo até o túmulo, não voltando nem mesmo a mencionar entre nós, como se fosse agravar a falta citar em voz alta.

Para que servem os irmãos, gente? Fico extasiada ao ver como éramos tão exatamente opostos e briguentos e hoje, tão exatamente iguais e parceiros. Não ouse discordar com veemência de algum dos meus irmãos, jamais vou ficar do seu lado, nem que eu precise mudar de opinião de última hora! A gente pensa igual, na mesma velocidade, acha as mesmas coisas engraçadas, em uma platéia imensa diante de um discurso, muito provavelmente teremos as mesmas reações. Temos os mesmos valores. O mesmo senso de ética e moral. A mesma facilidade em perdoar. A mesma paixão pela música, pela igreja, pelo simples. E essa confiança faraônica e inabalável entre nós. Somos um time muito forte! Não fosse os milhares de quilômetros entre todos nós, temeria pelo mundo, porque se separados somos incríveis, juntos nós arrasamos!

Que maravilha poder falar – às vezes nem terminar de falar – e ser totalmente compreendido. Ouvir sabendo onde tudo vai dar, mas com a solidariedade em dar vazão a sentimentos que não podem ser engarrafados. Saber exatamente quem são e poder orgulhar-se, com essa força gigante, deles: que são mesmo um pedaço seu, e que, sobretudo, têm neles muitos dos seus próprios pedaços em cada filete de história que passaram juntos.

Tantas diferenças e tantas semelhanças. Os irmãos servem para lembrar quem a gente é, para remendar os valores desgastados, para lembrar que a gente nunca precisa seguir sozinho, e para ver que papai e mamãe jamais conseguirão medir o valor da paciência em separar 17 brigas (e meia) por dia.

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4 comentários sobre “Para que servem os irmãos

    1. Jamais chegarei aos pés da Jô 😅 ela é demais!!

      Meu filho tem 4 anos e tem pouquíssimo contato com outras crianças, não vai na escola (ainda), não tem vizinhos, não tem primos próximos, e não temos uma igreja fixa. Lamento muito ver ele sozinho às vezes, mas acho que a gente consegue tirar o melhor de cada desafio se encaramos com amor, né?

      Acho que as mães nunca vão errar se sempre estiverem mirando no alvo.

      Não podemos dar tudo que queremos aos nosso filhos, mas já pensou se pudéssemos?! Esse desembaraço nos define e nos melhora.

      To aqui pensando… Super beijo pra vc Eni! Te admiro.

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