Raio X da geração Y

Quem é a minha geração e quais riscos impõe sobre a geração do meu filho

Ando irritada. Irritada ao olhar que grande parte da minha geração segue acreditando que o mundo não tem reconhecido o seu devido valor, e avança em seus dias sem sair do lugar. Uma geração que teve muito mais oportunidades que seus pais, estudaram idiomas, manjam de computador, fazem parte da turma das academias, do gluten free, são muito bem informados, viajaram ao exterior, falam bem em público, mas estão esperando ser tratados pela vida como foram tratados por seus pais em casa.

Minha geração é conhecida nos Estados Unidos como a geração Y, a galera que nasceu nos anos 80. O pessoal que, reconhecidamente, recebeu uma dose exagerada de incentivos, elogios e sofreram a super inflação da autoestima. Como eu, impreterivelmente no meio dessa confusão, consigo prever o que será da geração seguinte, à qual pertence o meu filho?

Não parece que os que geraram os Y decidiram privar seus filhos de todo o sufoco pelo qual passaram e decidiram privá-los das decepções? Camila Guimarães e Luiza Karam*  escreveram à ÉPOCA em 2012: “Na ânsia de criar adultos competentes e livres de traumas, passaram a evitar ao máximo criticá-los”. Um ano antes, Eliane Brum** escreveu ao mesmo periódico que, “quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade”.

“Com uma visão distorcida de suas qualidades, com dificuldade para lidar com as críticas e aprender com seus erros, muito jovens narcisistas não conseguem se acertar em nenhuma carreira”, continuam Guimarães e Karam. “Esses jovens acham que podem muito. Quando chegam à vida adulta, descobrem que simplesmente não dão conta da própria vida. Ou sentem uma insatisfação constante por achar que não há mais nada a conquistar”, acrescentaram.

Aí quando você acha que ninguém mais tem notado isso, se depara com a notícia sobre um frenesi que um discurso de formatura atrevido provocou. “Vocês não são especiais”, repetiu 13 vezes o professor de inglês, David McCullough Jr., aos alunos do 3o. ano de uma das melhores escolas de ensino médio dos EUA, Wellesley High School. “Ao contrário do que seus troféus de futebol e seus boletins sugerem, vocês não são especiais”, disse o professor. “Adultos ocupados mimam vocês, os beijam, os confortam, os ensinam, os treinam, os ouvem, os aconselham, os encorajam, os consolam e os encorajam de novo. (…) Assistimos a todos os seus jogos, seus recitais, suas feiras de ciências. Sorrimos quando vocês entram na sala e nos deliciamos a cada tweet seus. Mas não tenham a ideia errada de que vocês são especiais. Porque vocês não são.”

“Estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor”, explica Brum.

Motivados pela melhor das intenções parece que alguns pais têm feito uma grande trapalhada. Na tentativa de proteger seus filhos, de evitar que passem pelos mesmos perrengues, mas que cresçam com a melhor visão da vida, os poupam de desenvolver sua independência. O professor de psicologia da Universidade Estadual da Flórida, Roy Baumeister, revisou estudos sobre autoestima realizados desde 1970 e descobriu (penso porque se deram ao trabalho de pesquisar tanto) que a alta autoestima é provocada pelo sucesso, mas não é a causa dele. Primeiro você tira uma boa nota ou uma promoção no trabalho, depois você se sente bem, não o contrário. BINGO! “Quando os elogios aos estudantes são gratuitos, tiram o estímulo para que os alunos trabalhem duro”, afirmou.

Claro que tem muita gente genial nessa leva. Jovens que reúnem toda essa bagagem e conseguem ser realmente muito acima da média, mas parece que eis aí o conflito, ser mediano, não se sentir especial. Para quem foi motivado a sonhar alto e ter espaço para desejar ser quem quisesse na vida, parece ter faltado a lição do contentamento.

Aí penso nisso tudo e olho aqui para o meu filho, de quatro anos, e me pergunto como equilibrar tudo isso. Como dosar amor, incentivo, elogios certos, motivação sem deixá-lo crescer sem noção de mundo real. Acho que é dizer de vez em quando: “meu dia foi difícil hoje; meu trabalho não está fácil, mas como é bom voltar pra casa; você não é o centro do universo; eu não tenho tudo que quero, quando quero, acostume-se com isso desde cedo que vai ser melhor para você lá na frente”. Ou quando ele chegar pedindo socorro para resolver uma desavença com um coleguinha, incentivar: “resolvam entre vocês, conversem direitinho e cheguem num acordo”. Quando ele chorar devido a uma frustração, sentar do lado dele e dizer: “Poxa, filho. Isso é mesmo uma pena, mas acontece”. Tentar ensinar como disse Brum, no artigo supracitado, “criar a partir da dor”.

Brum sugere que é preciso “falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado. Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um iPad é dizer de vez em quando: te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”.

Não é pra complicar, nem impor sobre si mesmo o desafio de maquiar o mundo inteiro todo dia, mas ter a habilidade de, no mundo real, ser feliz.

Como dizem os gaúchos, “te mete, guri!”.



*GUIMARÃES, Camila. KARAM, Luiza. A turma do “Eu me acho”. Revista Época, São Paulo, agosto de 2012.

**BRUM, Eliane. Meu filho, você não merece nada. Revista Época, São Paulo, julho de 2011.

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2 comentários sobre “Raio X da geração Y

  1. Acho que a consequência mais triste da Geração y sobre seus filhos é a terceirização. Afinal, uma geração que não aprendeu a criar a partir da dor está absolutamente despreparada para as renúncias que fazem parte de assumir com as próprias rédeas a criação dos filhos. Querem a foto bonita do Instagram, mas sem abrir mão do trabalho que ME realiza, dos cuidados com a beleza e o corpo e assim por diante. As crianças crescem escanteadas, sempre entretidas seja nas creches integrais, com as babas regulares e folguistas (já que nos fins de semana os pais y precisam aproveitar a vida social) ou com os diversos eletrônicos. Uma alienação cada vez maior do vínculo familiar e da responsabilidade parental.

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  2. é, garota, é fácil mas é difícil. ou é tão simples que terminamos complicando?
    sempre penso no tipo de mundo em que meu filhote está crescendo… e me pergunto se poderei fazer diferente de tudo o que vejo. e tratar de não superprotege-lo, mas ajuda-lo sim, a desenvolver a fortaleza, resistência suficiente pra mais que sobreviver, viver.
    só com Deus, é o que penso todos os dias.
    muito bom texto. foi compartido aquí: http://tangintangi.blogspot.com.es/2015/10/sugerencia.html

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