Entrevista de quinta :: Pryscilla Just

Apresentação

A maternidade chegou de surpresa para Pryscilla, ela, que tinha planos ambiciosos para a profissão, percebeu que as responsabilidades de mãe vêm ao lado de surpreendentes realizações. Depois de um grande sufoco, Pryscilla percebe que tudo contribuiu para ela, hoje, se sentir completa. Conheça essa história. Com vocês: Pryscilla Just!

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Ficha técnica

Nome: Pryscilla Just Valença Sales

Idade: 30

Profissão: Advogada

Nome do esposo: Jardel Fabio Araújo Sales

Profissão do esposo: Administrador

Nome da filha: Melissa 

Idade da filha: 4 anos

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Quando e por que você decidiu ser mãe?

Eu não decidi ser mãe de livre e espontânea vontade, eu descobri que ia ser mãe. Não era algo que seria para logo, eu tinha 4 anos de casada, era algo que eu pensava para 8 ou 10 anos de casada, eu traçava projetos para minha vida, e uma criança deixaria os objetivos um pouco mais difíceis de ser alcançados. Eu chegaria onde eu queria chegar, mas de uma forma mais lenta e com alguns sofrimentos.

Como era sua vida profissional antes de ser mãe?

Antes de Melissa, eu era concurseira, estudava para concursos de juiz, procurador, promotor e cantava nos finais de semana. Eu sentava numa mesa para estudar às 11h da manhã e só largava 23h. A minha profissão era essa, concurseira.

Qual foi a maior surpresa que a maternidade lhe trouxe?

Duas surpresas: um amor que eu não sabia que existia, um sentimento, uma coisa grande, estupidamente grande e diferente. A outra foi ter podada a minha liberdade. Eu era muito livre, livre para ir e vir, para fazer, para pensar e a maternidade me tirou isso. Eu não digo mais o que quero, eu não faço mais o que eu quero, eu não vivo mais como eu quero viver, porque alguém vive sob minha dependência, então eu ganhei um amor e perdi a liberdade.

Qual era o plano sobre sua carreira antes de Melissa, você conseguiu executar? Imaginou que seria diferente a forma de conciliar trabalho e filhos?

Continuar estudando para concursos e desenvolver o trabalho do meu CD, era isso que eu tinha em mente. Estudando na semana e pregando e cantando nos finais de semana. Eu descobri que estava grávida enquanto gravava meu CD. Ainda grávida achei que continuaria estudando e pregando, tentei fazer isso durante a gestação e fiz, fiz bem, depois que Melissa nasceu eu fiquei o primeiro ano da vida dela tentando fazer isso. Tentando conciliar. Levava Melissa para algumas apresentações, e não deu certo, porque a criança não tem que se moldar a nossa vida. Eu hoje penso totalmente diferente.

Quando eu fiquei grávida eu dizia, ela vai me acompanhar em tudo, vai ser minha parceira. Ela vai, mas ela vai no momento certo, quando o corpo dela estiver pronto para aquilo, eu não sabia que eu precisava esperar o momento oportuno. Eu coloquei Melissa em muitas situações de risco e me coloquei também, pela minha imaturidade, eu desenvolvi traumas (em relação a isso) muito grandes, hoje faço terapia para tentar dissolver essas experiências negativas que eu tive levando Mel comigo para os lugares.

Hoje eu vejo diferente, cara você teve uma criança, a vida vai parar sim! Até uma determinada idade,  até chegar essa fase você tem que se moldar a criança, você não pode fazer um ser daquele, inofensivo, sofrer, porque você quer realizar os seus caprichos, os seus sonhos, e eu fiz isso com Melissa. Ela sofreu com isso e eu também, porque vi o sofrimento dela.

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Como você concilia trabalho e sua filha? Como é, em geral, a rotina de vocês?

Ajeitei as coisas para estar com ela, de manhã estou no trabalho (e ela na escola) mas à tarde estou com ela, à noite estou com ela, e se preciso trabalhar em casa, eu trabalho só depois que ela dorme, se o cliente me liga eu não atendo, retorno assim que ela dorme, respondo os e-mails depois que ela dorme. Mas enquanto estou com ela a atenção é exclusiva.

Você tentou deixar de trabalhar para se dedicar exclusivamente ao lar? Por que acredita que com você funciona melhor trabalhando fora?

Depois que Melissa nasceu eu tive que trabalhar, passamos por uma situação complicada no trabalho do meu esposo, que não estava recebendo mais salário. A gente se sustentava a partir de umas reservas financeiras, mas eu não sabia que a gente estava vivendo isso. Eu estava grávida, esperando ser chamada para um concurso muito bom que eu já tinha passado, e eu ficava contando os dias em que eu ia receber uma convocação em casa, enquanto isso, meu esposo não recebia salário,  e eu não sabia que as reservas estavam acabando, quando Melissa tinha completado 3 meses, ele me acordou 6h30 chorando e disse: “eu não tenho mais condição de sustentar a  casa, nosso dinheiro acabou, eu só tenho 15 reais no banco e eu sei que precisamos comprar fralda, que você precisa comer bem e eu não sei mais o que fazer”.

Naquela hora eu tomei aquele susto. Aí você pode perguntar e o enxoval, e os móveis do quarto de Melissa? Tudo quem deu foi a minha família. Minha irmã, meus pais, eu passei os 9 meses de gestação percebendo que tinha algo errado, mas sempre que eu perguntava meu esposo dizia que não estava acontecendo nada, depois me disse que não queria me preocupar, sabia que eu era ansiosa e não queria me preocupar com isso, acabou tentando me poupar. 

Eu via algo acontecendo, mas não ficava importunando. O tempo ia passando e eu via meu pai se mobilizando para comprar as coisas comigo, com 3 meses de vida de Melissa, então, descobri que tinha acontecido tudo isso.

(Naquele dia) quando ele saiu de casa eu me ajoelhei, peguei a carteirinha da OAB e disse: “O Senhor me deu uma profissão, se eu me enveredar eu sei que eu vou gostar, mas eu não sei nem por onde começar, não tem ninguém da área na minha família, então me ajude porque preciso ajudar meu marido”. Por volta de 10h30 da manhã, minha mãe foi na minha casa, meu telefone tocou e pela primeira vez alguém estava me chamando de doutora. Um homem de São Paulo estava em Aracaju, e precisava oficializar sua separação. Ele saiu daqui deixando uma esposa, mas ambos já haviam formado novas famílias e queriam regularizar a situação. Nos encontramos, eu nunca tinha feito uma separação, no dia seguinte conseguimos realizar tudo com muita tranquilidade, eles ficaram muito agradecidos, tiravam fotos comigo, nunca vi isso. 

Eles me pagaram e fui para casa. Quando cheguei vi meu esposo desanimado, prostrado e eu disse para ele: “Se levante dessa cama, tome uma banho, faça a barba, coloque sua roupa e vá pagar as nossas contas porque Deus já nos sustentou esse mês”, e o dinheiro era exatamente o que a gente precisa para passar cada mês.

Meses depois meu esposo tomou coragem, saiu da empresa dele, e hoje ele tem uma agência de cobrança, dentro do escritório onde faço parte. Hoje ele é sócio no escritório de advocacia e toca o negócio dele para frente. Hoje ele sustenta a casa e foi assim que começou. Tive que sair da vida de concurseira para advogar, amo o que eu faço, hoje vejo que eu não seria feliz no serviço público, foi um presente de Deus.

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O que você acha sobre as pessoas censurarem as mães que trabalham fora?

Acho fantástico uma mulher que diz assim: “eu quero ficar em casa, não quero trabalhar” e é feliz naquela situação. Eu não seria feliz se eu só fosse mãe, dona de casa, porque não está no meu gene, na minha personalidade, no meu jeito, não está. Eu vivo para conciliar, advocacia, maternidade, casamento, servir na igreja, eu vivo a vida para conciliar isso tudo. Porque eu preciso disso tudo para me sentir feliz. Preciso estar com Melissa e saber que ela não está com mais ninguém, quem está com ela sou eu. Ter meu trabalho e daqui tirar meu sustento, o trabalho me dignifica, preciso da igreja e trabalhar para ela, porque eu nasci para servir a Deus, eu preciso disso tudo, não vou ser feliz se eu tirar uma dessas coisas.

Eu achei que eu ia ser do lar mas, fui chamada para o trabalho. Quando isso aconteceu, tive uma conversa com meus pais, e tive apoio da minha família, minha mãe disse vai trabalhar, e não se preocupe, Melissa não vai precisar de babá, Melissa vai ser criada por todos nós. Mas vá. Sem esse apoio eu não teria ido. Da mesma forma que abri mão de parte do meu ministério (como cantora adventista), eu abriria mão da minha profissão por Melissa sim, eu não ia querer ter um filho no mundo para ser criado por outra pessoa, eu não tive escolha para me dedicar exclusivamente ao lar.

Trabalhar me faz muito bem, os 3 primeiros meses quando fiquei em casa eu meio que surtava, era ficar em casa demais (risos)!

Me fez bem sair de casa um pouco, o tempo que passo fora de casa sem ela é como se eu estivesse vivendo para mim, isso me faz bem, alimenta o meu desejo de liberdade. Não dá para censurar ninguém, porque cada núcleo familiar tem a sua realidade, além disso cada mãe tem um jeito, uma personalidade, um sonho diferente, não posso dizer, você está errada porque está trabalhando, muitas têm que trabalhar para sustentar os filhos, para dar a eles o que comer. A maioria não é porque quer, é porque precisa.

Eu não fui criada para ser dona de casa. Ainda assim eu não tenho empregada, eu  que faço tudo, desde lavar banheiro, passar roupa, a cozinhar…. mas eu gosto de estar na rua, de sair, gosto de me sentir útil. Existem mães que têm esse perfil, eu não posso olhar para elas e julgar. Cada uma sabe onde é o seu limite.

Você concorda que a maternidade é uma oportunidade de se reinventar? Por que? 

A maternidade é a oportunidade de você se reinventar completamente! Nós somos uma criatura antes de sermos mães, depois que a gente se torna mãe, a gente se torna uma outra pessoa, tudo ganha significado diferente, as frutas têm outro sabor porque você vai querer que seu filho coma as frutas, o tempo vai ser precioso, o sorriso da criança vai fazer você congelar o seu olhar, e quando somos mães descobrimos a capacidade que temos de dar conta de tantas coisas ao mesmo tempo. A maternidade nos dá a oportunidade de, como ser humanos, vivermos coisas e, sentirmos coisas e, interpretarmos fatos da vida de uma forma bem diferente.

Precisou inverter a ordem das coisas na sua vida? O que decidiu priorizar, e de que forma faz isso?

Inverti sim a ordem de algumas coisas, em primeiro lugar está Melissa. Na prioridade das minhas atividades do dia. Por Melissa eu freio a minha agenda, por Melissa eu só trabalho meio período, ela é minha prioridade, mas para eu me sentir realizada eu não posso estar só com ela, preciso servir a Deus, ao próximo, trabalhar.

A família de onde você vem tem muitos filhos, não é? E você, pretende ter mais filhos?

Somos 9 filhos, tenho 8 irmãos, a única coisa que me prende à ideia de ter mais um filho é o fato de Melissa querer muito ter um irmão, e penso que, com um segundo, eu vou ter a oportunidade de errar menos, e poder olhar para trás e pensar “eu só errei com Melissa porque eu não tinha maturidade nem conhecimento” e de certa forma diminuir o sentimento de culpa de algumas coisas que eu fiz. 

Além do trabalho você é Adventista e tem uma rotina muito ativa na igreja. O que você faz?

Eu tenho meu ministério, eu canto, prego e junto com meu esposo dirijo a música na nossa igreja, fora isso, eu faço qualquer coisa dentro da igreja, ajudo no departamento infantil quando falta uma professora, faço comida para o almoço comunitário, sirvo água durante o estudo da lição, às vezes levo água de coco para servir para todo mundo, enfim, gosto de trabalhar.

Suspendi todas as viagens, prefiro que Melissa me veja servindo na igreja, servindo água, ajeitando as cadeiras, trabalhando no louvor da igreja, do que levando-a comigo em viagens mais complicadas.

Isso está sendo maravilhoso para minha filha, porque me vê trabalhando para Deus de outras formas. Em 2016 vou abrir minha agenda novamente, mas vou abrir somente um compromisso por mês, porque o meu maior compromisso é com ela.

Você tem divulgado em suas redes sociais ter optado por uma rotina de vida mais saudável. Por que decidiu mudar?

Tenho vivido uma vida mais saudável sim, porque quero viver com saúde para ver minha filha crescer. Eu estava perdendo a minha saúde, todas essas coisas são necessárias para eu me sentir realizada, casa, família, trabalho… e isso sobrecarregou meu organismo e eu adoeci. O estresse causou inflamação em vários órgãos do meu corpo e para eu melhorar eu tinha que mudar meu estilo de vida e gerenciar meus pensamentos, porque sempre me levam a uma ansiedade muito extrema. Ou eu me internava, ou eu partia para um tratamento natural e o que me deu força para entrar nisso de cabeça foi pensar: eu vou ganhar saúde para ver a minha filha crescer. Meu médico foi muito categórico: “Se vc continuar assim não vai chegar aos 40 anos de idade”, e quando eu pensava que não veria Melissa fazer 15 anos, começar a namorar?! Parei tudo e disse, eu tenho que correr atrás da minha saúde. Por ela, optei viver com saúde. Também tinha optado por uma vida mais saudável na gestação, vivi nos 9 meses uma vida que nunca vivi, me afastava das preocupações, mas não consegui dar continuidade, agora, porém, não consigo mudar por mim, mas mudei por ela.

Quais são seus sonhos como mulher daqui para a frente?

Meus sonhos não são tão ambiciosos, quero ter mais controle sobre minhas emoções, quero saber conquistar meu marido a cada dia, ter a tranquilidade, serenidade, paciência de que as coisas vão acontecer no tempo certo. Como mulher quero ser independente emocionalmente, ser segura, quero que isso venha de fora pra dentro e não de dentro pra fora, que venha de Deus. Que a segurança, serenidade, tranquilidade, venha de Deus.

Quero ter meu prédio (de serviços em advocacia), com minha marca, meus profissionais, todos da minha fé, quero ensinar para eles que é possível fazer advocacia pura, honesta, podemos caminhar em busca de exercer uma atividade correta com boa fé, clareza, pureza.

Quais são seus sonhos como mãe daqui para a frente?

Como mãe, quero olhar para minha filha e vê-la servir a Deus por amor, vê-la fazer as escolhas certas e crescer em estatura e graça diante de Deus e dos homens, uma menina que busca fazer a vontade de Deus.

Baseado em tudo o que viveu desde a chegada de sua filha, que ponto você achou mais difícil?

Descobrir que alguém vai depender de mim para o resto da vida. Depender que eu esteja bem emocionalmente, financeiramente, na minha saúde. Eu vivi uma vida em busca de independência, e eu vivi um pouco da independência, e hoje eu não dependo de ninguém mas alguém depende de mim e assim a carga é maior, isso foi o mais difícil, entender e  aceitar que alguém vai depender de mim para uma vida inteira.

Deixe uma breve mensagem para mães que vivem num contexto semelhante ao seu.

Para a gente ser feliz precisamos de muitas sacolas, sacola do trabalho, filho, boa esposa, boa filha, boa serva de Deus, boa dona de casa, muitas vezes essas sacolas pesam muito sobre os nossos ombros, juntas elas nos dão sentimentos de felicidade e realização, e tiram a saúde, vitalidade, equilíbrio mental. Não conseguiremos realizar todas as atividades para as quais nos colocamos à disposição se não estivermos ligados a videira, quando olho para frente e vejo tudo que preciso desenvolver peço ajuda do céu: me capacite, me dê força, me levante quando eu cair e me deixe viver em equilíbrio para que eu não perca o que ainda de melhor está por vir. Mamães que, assim como eu, têm muitas bagagens para carregar, e assim como eu, só são felizes com várias dessas bagagens lembrem (do verso): não te mandei eu? seja forte e corajosa, vai! porque Deus é contigo.

©Photographer Klayfe

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3 comentários sobre “Entrevista de quinta :: Pryscilla Just

  1. Gostei muito das perguntas e respostas. É difícil ver uma entrevista com tantas perguntas bem boladas e respostas dentro do contexto das perguntas. Parabéns pra vocês!!!! 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼😘😘😘

    Curtido por 1 pessoa

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