Masculinidade barata

Socorro! Uma barata! Não pode ser possível isso, meu esposo está viajando e não há nenhuma pessoa que possa vir aqui correndo me ajudar. Justo uma tão enorme e nojenta. Não. Não pode ser tamanha desgraça em minha vida.

Eu estava aspirando embaixo da pia do banheiro quando sai em disparada uma barata nojenta e enorme sem direção certa, como costumam ser todas as baratas. A velocidade delas é uma das coisas que mais odeio, porque você nunca sabe onde elas estão indo e sempre me pegam de surpresa. Por sorte eu tinha um veneno em spray, corri para buscar depois de muitos gritos.

Trouxe comigo uma vassoura também. Em uma mão o veneno, na outra a vassoura. Nessa o Noah – meu filho de quatro anos – já estava à porta comigo com olhos arregalados. Localizei a barata, com as mãos tremendo afastei o lixo que a ocultava e taquei spray gritando enlouquecidamente. Cada apertadinha no negócio era um grito, como se estivesse numa batalha épica, gritando contra os meus inimigos e demonstrando toda a força do meu ataque. Foi uma sequencia de quatro ou cinco gritos longos e estridentes.

Saí rápido do banheiro fugindo do cheiro e com o coração pleno de esperança da breve morte daquela monstruosa criatura. Noah queria observar cada movimento funesto, mas o trouxe para fora o mais rápido que pude.

Passados alguns minutos me deparei com a assustadora realidade, o pior estava por vir. O que fazer com o corpo inerte? Aguardaria o óbito e teria de jogar no vaso, mas como? Como eu ir pegar? Luvas, toucas, capacetes, botas, uniforme de astronauta? Não eu não tinha! O que fazer? Fiz as contas, meu esposo demoraria 3 dias para chegar, não, não dava pra esperar. Conviver tantas horas com a certeza de um corpo inanimado a iniciar putrefação.

Noah! Meu filho seria a minha saída. Ensaiei mentalmente quais estratégias altamente persuasivas o encorajariam. “Filho, preciso muito da sua ajuda. Tenho muito medo de barata, você pega a barata e joga no vaso para mim? A gente faz uma luva e lava sua mão depois e…”

Ele pareceu não acreditar que viveria tão excitante aventura. Coloquei uma sacola e dei um pedaço de papel higiênico em sua mão que foi em direção à barata. Antes mesmo dela entrar em óbito, quando ainda esboçava seus movimentos em reflexos involuntários, meu corajoso filho a tomou e colocou cuidadosamente no vaso sanitário. Fechou a tampa, subiu na tampa e deu descarga. Não sei dizer o tamanho do alívio. Consigo, agora mesmo, suspirar aliviada. sobretudo por não ter sido necessário chamar os bombeiros.

Pensei: “Que bacana! Uma oportunidade de trabalhar toda a vasta masculinidade de um menininho de quatro anos”, torcendo que algum dia possamos ver alguma consequência nesse sentido dessa empreitada inusitada. Aí me lembro de alguma coisa que vi na televisão, gente defendendo heroicamente e sendo aplaudido por pregar a liberdade de seus filhos escolherem a qual gênero pretendem pertencer. Não “pera”, isso está mesmo certo?

Se o sexo dele não define seu gênero, eu devo deixá-lo livre? Mas, e meu papel como educadora fica onde? Se nossos filhos devem ter total liberdade para decidirem quem são e se tornarem quem desejam ser, qual seria a minha função? Se hoje, adulta, me dessem a chance de escolher meu gênero, estaria na mais angustiante e terrível e desafiadora questão de minha vida. Não consigo deixar de imaginar como a minha geração de pais e mães parece ser aqueles hippies que vejo nas referências históricas. Que lutaram para ter tanta liberdade e parecem hoje dar tudo isso para os seus filhos, que são incentivados a ser quem eles querem independente de sua fisiologia.

Eu mesma gostava de muita brincadeira de menino, não era nada vaidosa, pelo contrário. Se meus pais, ao notar isso, e começassem a insistir nas ideias sobre eu poder brincar de carrinho se quiser, poder ter roupas azuis se quiser, não precisar usar vestido se eu não quiser, porque poderia escolher ser quem eu quiser. Eles são meus pais! Eu certamente seria induzida a ser quem eu queria naquele momento, e cometeria um erro gravíssimo e sem retorno.

Não seria responsabilidade demais para uma criança que mal sabe decidir sobre coisas tão sem mais importância?

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