Castigo, palmada ou nada

“Isso vai doer mais em mim do que em você”, pensei na hora de dar uma boa explicação para a afirmação do meu filho, Noah, de quatro anos. “Eu nunca pensei que ia ter uma vida assim. Eu queria ter uma vida normal”, ele disse. Perguntei o que ele queria dizer exatamente com isso, ao que ele respondeu: “uma vida sem castigo”.

Esses tempos me deparei com o artigo Castigo para pensar nem pensar!, com o subtítulo: “Pense bem antes de mandar seu filho pensar sobre um erro que ele cometeu. Você acha mesmo que ele está preparado para isso?” É dito que não há problema no castigo em si, desde que haja uma relação direta com o erro e passam a expor inúmeras opiniões de especialistas sobre a degradação da imagem do pensamento, explicam que a criança só tem condições de refletir sobre seus erros após os seis anos de idade e define qual deveria ser o papel da mãe.

“Você está triste porque seu brinquedo quebrou, você está irritado porque quer dormir, você está bravo porque eu não deixei você fazer o que queria. Essa é a principal função da mãe até os 5 anos. É muito mais importante do que fazer a criança pensar sobre um erro. Você está com ela criando associações”, disse à reportagem a psicóloga e psicopedagoga, mãe de quatro filhos, Elizabeth Monteiro. Eu juro que pensei que fosse muito mais do que isso.

Em contrapartida o psicólogo americano, Kevin Leman – e você ainda vai me ouvir falar bastante sobre ele – diz que “não é sua função como mãe fazer seu filho se sentir bem consigo mesmo. Sempre digo que uma criança descontente é saudável”. Segundo ele o papel da mãe tem tudo a ver com dar um “choque de realidade” em seus filhos, afinal, a realidade que os aguarda lá fora é bem menos favorável e parcial.

Hoje eu acordei com uma vontade enorme de escrever sobre esse assunto, mas a casa estava bagunçada, precisei arrumar. Depois, recebi um e-mail com um empecilho sobre um cadastro, precisei de ajuda, a moça que me atendeu foi grossa e quase me chamou de burra, tive de insistir naquela humilhação para conseguir resolver meu problema. Terminei de lavar os banheiros e estava cansada, nem deu tempo de fazer isso e corri para a cozinha para preparar o almoço. Meu filho reclamou porque não gosta de cebola.

Uma vez eu tive duas chefes que zombaram de mim covardemente enquanto eu digitava de costas para elas. Eu havia cometido um erro, estava no departamento há poucas semanas ocupando uma função para a qual eu não estudei e com a qual eu não tinha a menor relação. Elas eram cristãs, muito simpáticas com a minha família, mas eram desumanas com uma jovem imatura em seu primeiro emprego.

Eu chegava em casa chorando, sempre com uma novidade sobre o destrato da dupla, mas precisava do emprego e, sem escolha, além da inexperiência precisava lidar com a recusa da paciência. Fui injustiçada, elas eram terríveis e devem pagar por isso? Não, acho que se trata de vida real. E quanta gente passa por coisa muito pior.

Naquele dia, saímos eu e o Noah para um longo dia de passeios, ele foi alertado que se não cooperasse sofreria as consequências. E ele se comportou muito bem, como na maioria das vezes. Noah nunca apanhou, mas o “cantinho do pensamento” adaptado faz milagre aqui em casa. Surte efeito rápido e a longo prazo. Meu filho não é burro, pelo contrário, consegue entender muito bem nosso tom de voz e fica arrasado com a possibilidade de nos decepcionar. Uma boa conversa é sempre uma boa conversa, somos claros e firmes sobre as regras. Porque assim como nós adultos, as crianças precisam seguir regras.

Quando eu era pequena, depois de eu e meus dois irmãos aprontarmos alguma, fizemos uma filinha, ouvimos uma dura reprimenda do meu pai e, na sequencia, levamos um tapinha na mão. Eu fui a última e disse, “nem doeu”. Enquanto meu pai respirava, provavelmente pensando sobre o que faria depois disso, meu irmão mais velho interrompeu: “Não é pra doer, Jeanne! É pra aprender a lição”. Pronto.

Na adolescência comecei a dar sinais de rebeldia, depois de alguma frase estúpida – como costumam ser as frases rebeldes – meu pai parou o que estava fazendo, me olhou no fundo da alma e disse, “conserte o seu comportamento ou vamos conversar”. Só isso já me deu um frio na espinha. Morrendo de medo de ele lembrar da promessa mudei rapidinho minhas atitudes e, graças a Deus, a conversa não aconteceu até hoje.

Acredito que diferentes personalidades exijam diferentes tipos de disciplina. Na minha casa só bastava um olhar! Porque eu conhecia meus pais, seus valores e suas expectativas a meu respeito. Já ouvi gente dizer que apanhou demais na infância, mas assumem que se tivessem apanhado mais, hoje seriam pessoas melhores.

Ao meu filho, eu gostaria de dizer que, infelizmente, ele não é o centro do mundo. Precisa aprender que para tudo há limites, há regras e há disciplina. Estou preparando-o para a vida. E quando ele errar, vou estar aqui para ajudar e abraçar, mas minha função também é corrigir. Eu também errar, é certo, mas garanto que estarei sempre mirando no alvo.

E sobre essa enxurrada de experts confundindo toda hora a nossa cabeça, gostaria de alertar as mães: ninguém nesse mundo é mais especialista em seu filho do que você.

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5 comentários sobre “Castigo, palmada ou nada

  1. Jêêê, que texto ótimo! Acabei de compartilhar ele no face.. e como eu sei que você não vai ver, vou colar aqui o que eu escrevi no post. rsrs

    “Ela foi minha roommate por um ano, e desse período lembro de algumas boas conversas na madrugada, quando ela voltava das viagens com o Novo Tom. Desde sempre super dedicada, esforçada e muito inteligente. Daí ela casou, um teeempo depois ficou grávida (!!!).. e quando o Noah nasceu, conhecendo um pouquinho da Jeanne, eu tinha certeza de que seria uma experiência no mínimo interessante. rs Falei “Jê, você precisa fazer um blog”, mas acho que não colou (ela sempre foi muito discreta!)… rs só que essa semana, 4 anos depois, eu me deparo com esse texto dela.. no blog DELA, o “Quando nasce uma mãe”! êêê! Parece que o mundo dá voltas, não é mesmo Jeanne Moura?! haha

    Brincadeiras a parte, talvez ela nem lembre desse episódio.. mas imagino que ela deve ter considerado muuuuito antes de se render! rs Só digo uma coisa: “eu já sabia!” haha Tô achando ótimo! E recomendo! 😉 “

    Curtido por 1 pessoa

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